:::::::::::::: ANPOCS 1998/2000

Coordenação e Proponentes

Leôncio Martins Rodrigues, Unicamp.
Iram Jácome Rodrigues, USP
Leila Maria da Silva Blass, PUC-SP.
Regina Morel, UFRJ
Elina Pessanha, UFRJ
Sônia Larangeira, UFRGS
Marco Aurélio Santana, UNIRIO
Brasília Carlos Ferreira, UFRGN
Armando Boito Júnior, Unicamp
Christiane Girard, UnB
Edna Castro, UFPA.
Ricardo Antunes, Unicamp
Jacob Carlos Lima, UFPB
Nair Bicalho, UnB
Silvia Maria Araújo, UFPR
José Ricardo Ramalho, UFRJ
Heloísa de Souza Martins, USP
Glauco Arbix, USP

Plano de Trabalho

A produção do GT Trabalhadores, Sindicalismo e Política tem apresentado resultados de pesquisas voltados para a análise do movimento sindical contemporâneo no Brasil e em outros países – principais tendências, relações com o sistema político, movimento trabalhista, movimento sindical, análise da estrutura sindical e da organização interna dos sindicatos –, trabalhos teórico-metodológicos que discutem, de uma perspectiva crítica, os fundamentos da crise da sociedade do trabalho e do sindicalismo, bem como estudos históricos que, reconstruindo a formação de atores coletivos, têm apontado para a diversidade de trajetórias da ação sindical em nível regional em nosso País. Além disso, a partir da segunda metade dos anos 90, têm sido relevantes os estudos no interior do GT no que diz respeito ao processo de globalização e seus impactos mais gerais no mundo do trabalho, em particular a questão da reestruturação na produção e suas repercussões para os atores sociais envolvidos. Além disso, o GT se transformou, em todos esses anos, em um espaço fundamental para a reflexão, o debate e intercâmbio de idéias no que tange a pesquisas que discutem a ação sindical e sua relação com o trabalho e a política. Isso se expressa, por exemplo, pela quantidade de publicações de seus participantes na forma de livros e artigos em revistas acadêmicas no Brasil e no exterior. Esses aspectos evidenciam um amadurecimento do GT, que possui como contraponto um núcleo de pesquisadores - das mais variadas regiões do País – com pesquisas e publicações conjuntas e que tem ajudado na formação e desenvolvimento de novos estudiosos dos temas ligados à problemática em questão. Em outras palavras, o Grupo de Trabalho também funciona, de certo modo, como núcleo de pesquisa.

Em permanente atividade, desde sua criação, o GT, que se chamava no passado "Sindicalismo e Classe Operária", reuniu-se em todos os Encontros Anuais da ANPOCS e organizou três seminários temáticos: um em 1990, do qual resultou o livro, O Sindicalismo brasileiro nos anos 80, São Paulo, Paz e Terra, 1991, organizado pelo professor Armando Boito Junior da Unicamp; outro em 1993, "Perspectivas do sindicalismo nos anos 90", no qual foi incluída uma mesa-redonda em conjunto com membros do GT "Elites Políticas" e, finalmente, em 1997 apresentou no XXI Encontro Anual da ANPOCS seminário temático "Trabalho, trabalhadores e sindicatos: desafios teóricos". Para este ano, está previsto a publicação do livro, Transformações no Mundo do Trabalho: o novo sindicalismo vinte anos depois, São Paulo, Scritta/Edições Sociais, organizado pelo professor Iram Jácome Rodrigues, da Universidade de São Paulo, com data prevista para publicação setembro de 1998. Este trabalho contará com cerca de vinte colaboradores. Esta obra é uma iniciativa do GT Trabalhadores, Sindicalismo e Política e uma das conclusões da reunião do Grupo ao final do Encontro Anual da ANPOCS de 1997.

A ampla gama de temas discutidos nesta última década acompanhou a diversificação da composição interna do GT, marcada pelo caráter multidisciplinar, à medida que reúne historiadores, sociólogos, cientistas políticos, antropólogos e economistas, oriundos dos quadros de universidades públicas e privadas, de institutos de pesquisa, agências governamentais e ONGs, de diversas regiões do País. Desde 1993 temos funcionado com as Coordenadorias Regionais, com vistas a facilitar contatos, atrair novos membros e construir uma rede em âmbito nacional de reflexão, troca de resultados de pesquisa e intercâmbio acadêmico. A última correspondência enviada aos membros do GT, no início de março de 1998 , por exemplo, foi endereçada a mais de 260 pesquisadores: estudiosos que, nos últimos anos, apresentaram trabalhos e/ou assistiram às sessões.

Para o triênio 1998-2000, o GT pretende dar continuidade à reflexão em torno da temática que o tem caracterizado, com ênfase especial em questões específicas ligadas tanto aos novos padrões de acumulação e ao perfil das classes trabalhadoras quanto às transformações do mercado de trabalho e às alterações no quadro institucional que regulam a relação capital/trabalho. Vale dizer, a nossa proposta visa analisar as questões controversas e inovadoras no que tange às transformações ocorridas, nestas últimas décadas, no mundo do trabalho, e seus impactos para a sociedade contemporânea tendo como fio condutor a instituição sindical.

DEFINIÇÃO DA TEMÁTICA

A proposta trienal do GT pretende discutir as transformações econômicas, sociais e políticas pelas quais passa a sociedade contemporânea confrontando-as com as mudanças que estão ocorrendo no âmbito do trabalho, tanto em países de capitalismo maduro quanto em países em desenvolvimento, procurando, ao mesmo tempo, relacionar essas alterações com o Estado e a política. Tendo como pano de fundo o processo mais geral de globalização econômica e reestruturação produtiva, pretende-se, nos próximos três anos, refletir sobre os impactos dessa dinâmica no mundo do trabalho e, em especial, na atividade sindical.

JUSTIFICATIVA

O sindicalismo e o movimento dos trabalhadores estão vivendo, certamente, a pior crise desde o seu surgimento. Uma das facetas mais expressivas dessa dinâmica são as altas taxas de dessindicalização em todo o mundo. Poderíamos situar o ápice desse processo nas décadas de 80 e 90. Tanto nos países capitalistas centrais como nos países em desenvolvimento temos assistido, nas últimas décadas, uma mudança sem precedentes no mundo do trabalho, que afetou direta e simultaneamente o movimento sindical e a ideologia e atitude trabalhistas.

A instituição sindical nunca esteve sob tanta pressão como nesse período. Nos países altamente industrializados o processo de globalização e reestruturação produtiva atingiu, de modo indiscriminado, a organização coletiva dos trabalhadores e mudou significativamente a correlação de forças entre capital e trabalho. A desregulamentação das relações de trabalho, o aumento do desemprego e do trabalho precário, a maior participação feminina no mercado de trabalho, todos esses fatores juntos têm diminuído a força de movimentos trabalhistas com larga tradição de luta. A situação não é muito diferente em países de industrialização tardia, principalmente aqueles sob pressão dos processos de reestruturação econômica, para abrirem seus mercados e se tornarem "competitivos".

No que se refere à aplicação de novas formas de gestão nas fábricas, conseqüência da necessidade aludida de aumentar a eficiência e a qualidade dos produtos industriais, os sindicatos têm enfrentado uma gama variada de novas estratégias de gestão e de políticas de recursos humanos, basicamente tomadas emprestadas do chamado "modelo japonês". Dentro do movimento sindical, isso também tem sido objeto de intenso debate: dentre as várias posições percebe-se uma oposição principal entre os que argumentam pela necessidade de negociar propositivamente as estratégias gerenciais e os que consideram necessária a manutenção da força viva de oposição a quaisquer movimentos de mudança propostos pelo empresariado. Antes de qualquer posicionamento prévio, no entanto, pode-se dizer que ambas as posições contêm pontos importantes, mas que precisam ser consideradas à luz dos efeitos que produzem sobre as condições de vida e de trabalho de seus representados e sobre a manutenção da instituição sindical como fundamental contraponto ao domínio da gerência dentro das fábricas.

O pano de fundo para esse novo padrão de relações trabalhistas, aparentemente, são as transformações econômicas pelas quais passa a sociedade contemporânea – o chamado processo de globalização – e o impacto dessas mudanças no mundo do trabalho, que tem como conseqüência, de um lado, a reestruturação da atividade produtiva e, de outro, uma certa fragmentação do trabalho, fenômeno que acentua a crise vivida pelo sindicalismo em escala internacional.

Esse processo, que estaria ocorrendo no âmbito das empresas, do mercado de trabalho e também da legislação, coloca para o sindicalismo a necessidade de criar uma nova identidade que, sem dúvida, mesmo mantendo o conflito como questão central, passará necessariamente por uma atuação mais voltada para a negociação e pelo fortalecimento da atividade sindical no interior da empresas.

Desse modo, há, pois, uma transformação na estrutura do mercado de trabalho, ao mesmo tempo em que está em marcha uma reformulação do sistema de relações de trabalho que, independentemente das diferenças setoriais, acompanha, em alguma medida, tendências internacionais. Assim, uma das questões centrais para a atividade sindical passa a ser o tema do emprego.

Além disso, a nova conjuntura internacional, em especial o processo de globalização econômica e de fragmentação da atividade assalariada, aponta novos desafios para o mundo do trabalho. Poderíamos lembrar, entre outros, que o fenômeno das mudanças na forma de gestão traz, concomitantemente, uma dispersão significativa e mesmo fragmentação entre os trabalhadores, situando, dessa forma, um dilema crucial para o sindicalismo. Isto é, como tornar compatível um movimento que é fragmentário e disperso, desse modo, individualizante, com aqueles princípios que, em certo sentido, são a essência da atividade sindical, quais sejam, solidariedade e atividade coletivas? Estas questões estão sendo enfrentadas tanto pelo sindicalismo nos países centrais quanto pela ação sindical em países como o Brasil.

A dinâmica da globalização econômica impõe para as empresas, em larga medida, a busca de ganhos de produtividade, ou seja, a procura "frenética" por eficiência e, em decorrência disso, a tentativa de aumento da competitividade de seus produtos, o que tem levado, em geral, a uma redução significativa do emprego industrial, e cujo corolário mais expressivo é a reestruturação produtiva nas firmas. De outra parte, esse processo é responsável por uma acentuada competição entre os assalariados, rompendo, de fato, em muitos aspectos, com a unidade de interesses entre os trabalhadores e levando-os a uma fragmentação sem precedentes.

No caso brasileiro, além dos aspectos mencionados, os sindicatos terão que fazer frente também às mudanças no modelo corporativo de relações de trabalho, que pressuporia, entre outros aspectos, completa liberdade sindical e, assim, o fim da unicidade sindical, do poder normativo da Justiça do Trabalho, do imposto sindical etc.

Enfim, a bibliografia tem mostrado que essas transformações mais gerais estariam criando as condições para um novo paradigma do trabalho. Além de levar a um redimensionamento do papel e das funções do Estado no mundo atual e das mudanças na esfera política, esse movimento implica alterações no papel do trabalho na sociedade contemporânea, capitaneada pela ideologia da "primazia" do mercado, que se caracteriza por mudanças nas formas de gestão e organização da produção, levando a um aumento da produtividade e competitividade das empresas e ocasionando uma redução significativa do emprego industrial.

De outra parte, a redução setorial do emprego, provocada pela absorção de novas tecnologias e novas formas de organização do trabalho, não é compensada, em geral, pelo aumento da ocupação nos demais setores da atividade econômica.

Diante de todos esses dilemas, como parte do debate nacional e internacional sobre o tema será dada ênfase, neste triênio, ao novo papel do sindicato nos próximos anos diante das transformações no mundo do trabalho, procurando responder, dentre outras, às seguintes questões: 1. Qual o futuro dos sindicatos numa sociedade "pós/neofordista", marcada pela informatização, pela flexibilização, pela globalização dos mercados, dominada pelo setor de serviços, pela cultura da "eficiência", pelas novas formas gerenciais (cooperação entre capital e trabalho), pela desagregação dos coletivos, demandando dos empregados maior qualificação, inovação e cooperação? 2. É o sindicato uma instituição obsoleta, com dificuldades para lidar com as novas formas de trabalho contingentes, com as novas identidades marcadas pela diferença e crescente desejo de autonomia/individualidade ou, ao contrário, em países como o Brasil, é uma efetiva garantia de cidadania para o trabalhador? 3. Qual a contribuição de estratégias descentralizadoras, tais como as da Alemanha (betriebsrat) e as da França (groupe d’expression)? 4. Qual a validade de estratégias revitalizadoras, que visam ampliar a base de representação dos sindicatos como, por exemplo, as do "sindicalismo geográfico/regional" ou "sindicalismo de associação/comunitário"? 5. Enfim, há, de fato, uma crise da sociedade do trabalho?

Em que medida essas questões se apresentam para o caso brasileiro? a) A redefinição do perfil das classe trabalhadoras e os desafios trazidos para o movimento sindical pela reestruturação produtiva implicaria, entre outras coisas, o aumento da diferenciação das situações de emprego (trabalho temporário, subcontratação/terceirização, trabalho parcial, a domicílio etc.), o que colocaria em xeque a representatividade dos sindicatos, bem como sua capacidade de articular demandas diferenciadas e de intervir nesse processo; b) A heterogeneidade interna dos assalariados chama a atenção para a importância de se discutir trajetórias diferenciadas de trabalhadores e trabalhadoras, procurando articular, nesta reflexão, a dimensão cultural e simbólica com formas de socialização sindical e política. Incluem-se aí questões ligadas ao papel desempenhado por fatores étnicos, de gênero e geracionais, bem como pela relação entre as esferas de trabalho e do não-trabalho na conformação do ator social político, por um lado, e na estruturação das escolhas que se colocam para a ação, por outro; c) O estágio atual de definição da relação capital/trabalho no Brasil estaria, aparentemente, apontando para diferentes possibilidades de articulação. De um lado, dos agentes s^ciais entre si e, de outro, da relação Estado/sociedade. Assim, novas práticas e formas de negociação coletiva – como aquelas tripartites representadas pelas Câmaras Setoriais, tentativas de negociação direta e de implementação de contratos coletivos de trabalho por parte de alguns segmentos trabalhistas, o processo de negociação e os novos acordos realizados nesta década de 90 na região do ABC paulista, por exemplo, entre empregados e empregadores – convivem com as formas rígidas herdadas da estrutura sindical corporativa (poder normativo da Justiça do trabalho, unicidade sindical, manutenção do imposto sindical etc.); d) As conseqüências para o movimento sindical do processo de privatização incluem problemas ligados às ameaças de perda de emprego, o redimensionamento das empresas e a recomposição da classe trabalhadora. De outra parte, começa a ocorrer uma modificação do papel do Estado, apesar da importância significativa que ainda mantém enquanto árbitro e agente regulador, dada a fragmentação de interesses do empresariado e da heterogeneidade do sindicalismo; e) Os dilemas em torno do papel dos sindicatos numa sociedade democrática, encarados ora como "agências políticas" ora como agências de negociação de interesses especificamente trabalhistas. Qual o papel que desempenharia o sindicato na construção e defesa dos direitos de cidadania, inclusive no espaço da produção? ; f) Como se daria a articulação do movimento sindical com os outros movimentos sociais em face das questões que afetam significativos setores da sociedade, como o desemprego, a precarização do trabalho, o tema do trabalho infantil , trabalho dos jovens, a informalidade, terceirização, exclusão, pobreza?

É nesse sentido que ganha relevância a discussão e reflexão sobre esses fenômenos contemporâneos e seus impactos para a realidade brasileira. É esse, pois, o escopo que o GT Trabalhadores, Sindicalismo e Política procurará abordar no debate intelectual, tanto no âmbito da ANPOCS quanto da sociedade brasileira, e essas são algumas das razões que justificam a solicitação de sua reinscrição.

PROGRAMA DE TRABALHO 1998-2000

A partir das questões sublinhadas acima, o GT pretende discutir os seguintes temas no triênio:

1998: DILEMAS DO SINDICALISMO CONTEMPORÂNEO

O debate atual
O sindicato diante das novas formas de trabalho: precarização, informalidade, cooperativas, terceirização
Particularidades do sindicalismo brasileiro
Proposta de evento independente do Encontro Anual da ANPOCS. Seminário sobre o tema: Transformações no mundo do trabalho: o novo sindicalismo vinte depois. Realização prevista para setembro de 1998 , Universidade de São Paulo.
1999: A ATUALIDADE DA QUESTÃO SOCIAL

Identidade social, trabalho e direitos: metamorfoses sociais e políticas
Reforma do Estado, políticas públicas e ação sindical
Estado, empresários e trabalhadores
Proposta de evento independente do Encontro Anual da ANPOCS. Seminário sobre o tema: Sindicalismo, pobreza e exclusão. Realização prevista para maio de 1999, Universidade Federal do Rio de Janeiro.
2000: BALANÇO DO SINDICALISMO NO SÉCULO XX E PERSPECTIVAS:

Internacionalização de direitos, sindicalismo e integração regional
Trabalho, sindicato e globalização
Uma nova agenda sindical?
Proposta de evento independente do Encontro Anual da ANPOCS. Seminário sobre o tema: Impactos do processo de globalização sobre o mundo do trabalho nos países centrais e nos países em desenvolvimento: uma perspectiva comparada. Realização prevista para junho de 2000, Universidade de Brasília.

 

 

Coordenador do NETS:
Marco Aurélio Santana
(IFCS UFRJ)


E-mail para contato:
Boletimgt@bridge.com.br

 
 

 

 

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