Faces do novo sindicalismo

Caio Galvão

Iram Jácome Rodrigues (org.). O novo sindicalismo: vinte anos depois. São Paulo; Petrópolis (RJ): Vozes; Educ; Unitrabalho, 1999.

Vários olhares sobre o novo sindicalismo, buscando compreender suas práticas, seu significado político-organizativo, e refletir sobre as principais questões que desafiam na atualidade a organizações dos trabalhadores, compõem a coletânea O Novo Sindicalismo: vinte anos depois, organizada por Iram Jácome Rodrigues.

O livro contém 11 textos que apesar de tratarem de um tema geral comum – o Novo Sindicalismo – analisam um leque amplo e diferenciado de aspectos, que ora enfatizam aspectos gerais de sua trajetória – origens, desenvolvimento, impasses –, ora se debruçam sobre um setor ou estado em particular, ou, ainda, sobre novos temas e desafios que pressionam a agenda sindical.

Sem se propor a fazer um balanço de conjunto dessa experiência, a coletânea tem o mérito de não restringir as análises ao universo industrial e metalúrgico da região do ABC, sem que isso implique em desconsiderar sua importância na constituição do novo sindicalismo. Chama a atenção para outros espaços que também são constitutivos do novo sindicalismo, valorizando: a contribuição de experiências que ocorriam, simultâneamente, em outras regiões, como é o caso dos textos que tratam de Minas Gerais (A Agenda Sindical Mineira nas Últimas Décadass: Permanência e Desafios) e do Espírito Santo (Qualificação Profissional e Empregabilidade: Novos Desafios ao Sindicalismo no Espírito Santo); as características de seu desenvolvimento em outras áreas, como o setor público (Emergência e Crise do Novo Sindicalismo no Setor Público Brasileiro); sua implantação em novas regiões (Organização Sindical e a Instalação de Novas Fábricas do Setor Automobilístico - O Caso do Sul Fluminense); e, o enfrentamto de novos temas (Para Além do ‘Novo Sindicalismo’: A Crise do ‘Assalariamento’ e as Experiências com ‘Trabalho Associado`).

Ruptura e continuidade

Um os aspectos mais interessantes se refere à construção da própria identidade do novo sindicalismo. O texto de Leila Blass (Novo Sindicalismo: Persistência e Descontinuidade) problematiza a ênfase excessiva no ‘novo’ que qualifica as práticas sindicais que marcam a retomada da luta sindical, que tem sido tão iluminadas, por dirigentes e pesquisadores,. Elas podem, por um lado, "levar a um menosprezo da persistência de tradições políticas e culturais na formação das classes trabalhadoras no Brasil", expressa pelas ações de seus protagonistas que "reiventam e recriam formas de organização e de mobilização, sem destruir as que lhes antecederam", apesar da descontinuidade na trajetória das lutas operárias e sindicais. Por outro lado, podem "desconsiderar as ambigüidades e paradoxos que perpassam a proposta do novo sindicalismo".

Em outro texto da coletânea (‘Novo Sindicalismo’ e a Idéia da Ruptura com o Passado), Marco Aurélio Santana observa que na conjuntura do surgimento do ‘novo sindicalismo’ houve uma "luta pela hegemonia político-sindical", que veio acompanhada de uma "disputa pela história". Isso implicou, na construção da sua identidade, em um certo "reducionismo do passado", que valoriza a idéia de uma ruptura. Esse exagero no corte entre o novo e o velho, "acabou por obscurecer as continuidades e pontos de contato existentes na prática organizativa dos trabalhadores, bem como os limites a ela impostos". O ‘novo sindicalismo’ para ele, "trouxe em seus marcos, tanto nas limitações quanto nas possibilidades, uma atualização de práticas já experimentadas na história do sindicalismo por setores, que a seu tempo, se identificaram com posições progressistas".

A busca de uma "continuidade histórica" também está presente no texto de Antonio Luigi Negro (Nas Origens do ‘Novo Sindicalismo’: O Maio de 59, 68 e 78 na Indústria Automobilística), que analisa a combatividade dos trabalhadores da Ford. Ele contrapõe a uma visão do "novo que irrompe espontaneamente", um "trabalho articulado", que "desagua toda uma série de iniciativas de luta e de organização", um processo cumulativo de experiências desses trabalhadores, que remonta à greve de 1959.

A evolução do ABC

A atuação do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC é objeto, a partir de diferentes enfoques, dos textos de Andréia Galvão (Do Coletivo ao Setor, do Setor à Empresa: a Trajetória do ‘Novo Sindicalismo’ Metalúrgico nos Anos 90) e de Iram Rodrigues (A Trajetória do Novo Sindicalismo).

No primeiro caso, a autora analisa a atuação dos metalúrgicos do ABC nas campanhas salariais, como expressão de mudanças na prática do novo sindicalismo. Ela explica as razões que levaram, no período atual, ao predomínio das negociações descentralizadas, que seriam condicionadas pela correlação de forças desfavorável ao sindicato, refletindo "a perda de influência política... e (de) sua capacidade de reagir à ofensiva do capital", num quadro de predomínio de uma "concepção sindical mais negociadora e menos confrontacionista".

Para Iram Rodrigues essas mudanças são expressão de uma nova estratégia sindical, passando de uma "que se apoiava no conflito para outra que privilegia a negociação, mais apropriada às transformações no mundo do trabalho. Esse ‘padrão sindical, "que se poderia chamar de realismo defensivo", gestado pelos metalúrgicos do ABC, constitui-se, para ele, em um "paradigma para a relação capital-trabalho no Brasil", "uma saída possível", combinando uma "forte dose de realismo nas negociações e uma acentuada diminuição da ideologização e politização da prática sindical anterior".

Esses e outros pontos de vista (ver Jornal Em Tempo N. 310) são importantes contribuições para um necessário esforço coletivo de análise da experiência cutista que não se restrinja a uma valorização das conquistas, mas que trate com rigor e profundidade os impasses políticos e ideológicos que marcam a crise do sindicalismo.

Caio Galvão é mestrando em Sociologia na UFMG

E-mail para contato: caiogalvao@uol.com.br

 

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