MARTINHO, Francisco Palomanes. A bem da Nação
– o sindicalismo português entre a tradição
e a modernidade (1933-1947). Rio de Janeiro, Civilização
Brasileira, 2002.
Resumo:
Os anos 70 viram, no Brasil, a profissionalização da carreira
do historiador, com a formação dos cursos de doutoramento
e da publicização das exigências daí decorrentes
e pressupostas. Um grande número de teses, pesquisas e relatórios
aprofundaram, ao largo dos anos 80 e 90, o papel do historiador, dando
provas da existência no país – recém-saído
da experiência traumática da ditadura militar e da democratização
incompleta – de uma verdadeira ´fome` de história,
expressa nas inúmeras publicações sobre história
contemporânea, dos relatos da resistência, das memórias
e dos documentos dos porões da ditadura, bem como uma larga safra
de filmes que marcaram o renascimento do cinema brasileiro.
Tal virada sobre si mesmo, praticada na maior parte dos centros de pesquisa
do país, resultou, muitas vezes, em isolacionismo e numa busca
desenfreada por especificidades só existentes no recorte autista
do próprio pesquisador. Assim, como uma reação
a tal isolamento, vários pesquisadores – tais como Maria
Helena Capelatto, na USP – voltaram-se para a história
comparada, buscando nas experiências de outras histórias
as regularidades ou singularidades e uma só história,
cada vez mais vivida em comum.
Alguns fenômenos da história contemporânea, particularmente
a constituição das ditaduras no período entreguerras,
1919-1939, prestava-se excepcionalmente bem para o exercício
de tais jogos de comparação. Alinhadas sob uma mesma grade
interpretativa, como as teorias do fascismo e do Estado corporativo,
os regimes surgidos na Itália, Alemanha e península ibérica,
com sua projeção, real ou imaginária, sobre ditaduras
como no Brasil de Vargas ou Argentina de Perón, pediam desde
há muito tempo um estudo detalhado por parte de pesquisadores
que dominassem ambos os universos arquivísticos e bibliográficos.
O trabalho aqui apresentado, de Francisco Martinho, representa um imenso
passo nesta direção: o rompimento com o isolamento nacional
da pesquisa e o esforço comparativo entre os grandes fenômenos
históricos contemporâneos. Dado o esforço arquivístico
gigantesco, realizado pelo autor, o trabalho – certamente apenas
um na direção de um projeto maior – volta-se para
o estudo detalhado, exaustivo, das idéias e práticas sindicais
sob regime salazarista, abrindo um universo pouco visitado pelos estudiosos
brasileiros. Desde logo as polêmicas historiográficas –
fascismo versus corporativismo, por exemplo – aparecem vivas,
atualizadas e com soluções ancoradas em erudição
e pesquisa documental.
O livro aqui apresentado torna-se, desta forma, leitura prévia
necessária não somente para o estudioso de Portugal contemporâneo,
como também, com muita ênfase, para os estudiosos do movimento
sindical e do movimento operário no Brasil, que podem buscar
aí as influências comuns num fenômeno histórico
que sempre se pautou pelo internacionalismo, bem como as especificidades
da luta sindical sob a ditadura de Salazar. Francisco Martinho, jovem
pesquisador e professor da UERJ, fomentador dos estudos lusitanos em
história contemporânea entre nós, marca, com sua
trajetória, a saudável projeção da nova
historiografia brasileira para além dos limites nacionais.
Francisco Carlos Teixeira da Silva