KARTCHEVSKY, Andrée et alli. O Sexo
do Trabalho. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1986.
Resumo:
O trabalho tem sexo? Pergunta absurda? Discussão sobre o sexo
dos anjos?
No entanto todos (as) sabemos que não é a mesma coisa
ser mulher ou homem dentro de uma fábrica, num sindicato, ou
simplesmente dentro de nossas casas. Vive-se no masculino ou no feminino,
sempre de maneira diferente, na Argélia, no México, no
Japão ou em São Bernardo do Campo. Mas em cada uma dessas
experiências distintas há mecanismos quase invisíveis
que tecem as relações entre mulheres e homens na vida
cotidiana, no trabalho doméstico ou no trabalho assalariado,
no sindicato ou em casa. Estes fios sutis e às vezes imperceptíveis
fazem com que tarefas, salários, qualificações
e práticas sindicais de homens e mulheres sejam ao mesmo tempo
articuladas e diferentes, definidas nas relações umas
com as outras como duas faces de uma moeda e articulando ao mesmo tempo
as experiências, as atividades, os tempos e os espaços.
O trabalho de uma mulher numa fabrica depende de sua disponibilidade
familiar; seu salário é definido em função
da existência de um maior, quase sempre do marido. Dela não
se espera que participe das lutas, “porque sindicato não
é coisa de mulher” e assim por diante. Trabalho masculino
é diferente de trabalho feminino, salário masculino é
diferente de salário feminino. Trabalhador não é
igual a trabalhadora. O trabalho também tem sexo.
Se é assim, a questão de longe de ser bizantina. Põe
em cheque outros dogmas mas além do sexo do trabalho, já
que se trabalhador não é igual a trabalhadora, a classe
operária tem dois sexos. Ou terá ela o sexo dos anjos?
Neste livro a relação entre as praticas sindicais e a
participação das mulheres nos sindicatos é analisada
a partir da experiência italiana e brasileira. A idéia
comum é questionar a existência de um modelo geral e genérico,
tanto das relações de trabalho quanto das relações
sindicais. Do confronto de pesquisas feitas em sociedades e culturas
diversas mas sempre articulando os espaços e tempos das trajetórias
femininas e observando como esta articulação imprime no
trabalho o sexo feminino em oposição ao sexo masculino,
surgiu este livro.
É um trabalho coletivo. Retoma alguns textos apresentados no
X Congresso Mundial de Sociologia realizado no México em agosto
de 1982. A sessão do congresso e o livro que dela resultou foram
organizados pelo Atelier Production que reúne pesquisadoras e
pesquisadores franceses. No fundamental a partir de vários caminhos
e temas diversos, os textos aqui reunidos formam um conjunto significativo
desta discussão que começou com a pergunta provocativa:
e se o trabalho tivesse um sexo?
A pergunta revelou-se pertinente e instigante. As Ciências Sociais
mais cedo ou mais tarde te que enfrentá-la.
(Elisabeth Souza Lobo)