Uma Nova Etapa na Vida da CUT

 

                      Leôncio Martins Rodrigues(*)

O VII Congresso Nacional da CUT, realizado no mês passado, chamou a atenção  pela eleição de um professor, ex-presidente da APEOESP,   para presidente da central. Pela primeira vez, um diretor do Sindicato dos Metalúrgicos de S. Bernardo deixava de ocupar o mais alto posto da CUT. O outro fato importante, mas menos notado,  foi a eleição de uma psicóloga (Sindicato dos Servidores Públicos da Saúde) para a vice-presidência, acompanhando, aliás,  a ampliação do número de mulheres na alta liderança cutista.  Observando-se mais de perto a evolução da composição da Executiva Nacional, vê-se que os dois fenômenos fazem parte de um mesmo processo em curso há certo tempo: aumento de dirigentes vindos de sindicatos de serviços (não-manuais, geralmente do setor público) e de mulheres. Na Executiva eleita no Congresso Nacional da Classe Trabalhadora  (CONCLAT),  que decidiu criar a CUT, os metalúrgicos ocupavam seis dos quinze postos da Executiva.  O número era excessivo e foi reduzido para quatro na Executiva eleita pelo I Congresso Nacional da nova entidade (1984). Mas  os metalúrgicos conservaram ainda bastante espaço, ficando com  a presidência e a secretária-geral, cujos ex-ocupantes são hoje deputados federais. Bancários e professores tinham quatro membros, dois de cada categoria. Seria fastidioso (e desnecessário) analisar a composição de todas as Executivas cutistas. Fiquemos com as duas últimas. No VI CONCUT (1997), numa Executiva Nacional de 25 membros,  os metalúrgicos tinham ainda  quatro postos entre os quais a presidência da entidade, o de maior visibilidade. Mas a vice-presidência e a 1ª secretaria já estavam, respectivamente,  com dirigentes do Sindicato de Bancários de S. Paulo e Osasco e da APEOESP. No total, os representantes de sindicatos de serviços ficaram com 14 postos;  os de sindicatos de trabalhadores industriais, com nove, cabendo  as outras duas vagas para trabalhadores rurais. Finalmente, no  último VII CONCUT, os metalúrgicos mantiveram apenas um posto importante, a secretaria-geral. Na  Executiva Nacional de 32 membro, a  APEOESP passou a ter dois representantes. No total, a categoria mais representada é a da Educação, com oito membros, seguida dos metalúrgicos, com cinco.  Os sindicatos do setor de serviços  ficaram com 50% dos postos; os de trabalhadores industriais, com 37,5% e os sindicatos de trabalhadores rurais com  12,5%.

O aumento da participação feminina está relacionado à crescente importância dos sindicatos de serviços, notadamente do setor público. No momento em que escrevemos, entre os treze integrantes "com postos" já distribuídos da Executiva, há quatro mulheres. Até o IV CONCUT, de 1991, as mulheres nunca tinham obtido, na Executiva Nacional, mais de um posto, geralmente secundário.  

Um dos fatores que comanda a distribuição dos cargos na cúpula das associações é a força de cada entidade associada, o que é absolutamente lógico.  No caso do sindicalismo, um indicador de importância é o número de trabalhadores filiados ou representados. A composição das anteriores Executivas da CUT refletia essa lógica de distribuição  de poder : as principais posições de comando ficavam com sindicatos do setor industrial, entre os quais os de metalúrgicos, os mais importantes, mais ativos e mais os organizados de um setor importante da economia. 

Seguramente, o número de associados não é a única variável a ser tida em conta quando se trata de explicar a distribuição de poder dentro das direções de centrais e confederações de trabalhadores. É preciso igualmente considerar a necessidade de atender as demandas regionais e as das numerosas facções políticas internas. Sem isso, a representatividade da direção ficaria enfraquecida. Habilidades pessoais de liderança certamente contam, mas contam muito mais quando têm atrás de si de uma organização poderosa.

Essas alterações no campo do sindicalismo, ainda que possam ser desagradáveis para os que estão perdendo espaço, já aconteceram no passado, quando os sindicatos de ofício, que organizavam operários qualificados,  foram superados pelos de trabalhadores das fábricas de produção em série e pelos de serviços, como docas e transportes. Um exemplo mais recente de declínio  é dado pelos sindicatos dos têxteis que até os anos cinqüenta estavam entre os mais fortes.

A partir da década dos setenta, as reestruturações industriais e outras mudanças que afetaram o mercado de trabalho perturbaram as estruturas de poder no mundo sindical, minando as bases dos sindicatos de trabalhadores manuais do setor privado. Esses haviam sido as fortalezas de um  sindicalismo que se identificava com a classe operária. Mas, a partir, aproximadamente, da década dos setenta, os sindicatos que mais cresceram, foram os dos empregados não manuais, basicamente do setor público. Nos EUA, os seis maiores sindicatos (em número de membros) já não estão no setor industrial. A distribuição interna de poder na central sindical AFL-CIO refletiu essas transformações. Em 1995, John Sweeney , presidente do Sindicato Internacional dos Empregados em Serviços (que organiza tanto empregados do setor privado como público)  foi eleito presidente da AFL-CIO. Era primeira vez que  o presidente da central norte-americana vinha de uma entidade de empregados não manuais. Na mesma ocasião, também pela primeira vez, uma mulher, Linda Chavez-Thompson, foi eleita vice-presidente.

As mudanças  determinadas pelo VII Congresso da CUT, acompanham, pois,   o que está acontecendo em outros países. Resta agora saber quais serão os rumos da central "sob nova administração". Nos últimos tempos, os empregados do setor público têm mostrado  mais agressividade e capacidade de mobilização do que os operários industriais, como o Governador Covas e outras autoridades puderam sentir. Assim, seria possível esperar a retomada de uma orientação  mais conflitiva e mais dinâmica da CUT porque greves e outras atividades reivindicativas são mais facilmente conduzidas num setor de emprego protegido. A dúvida, aqui, é se um curso mais radical poderia ser seguido pelos  sindicatos de trabalhadores do setor privado, se não ocorrer uma reativação significativa da economia. Mas quaisquer que sejam os desdobramentos, tudo indica que o VII CONCUT marcou  uma nova e irreversível etapa na vida da CUT.

 

Publicado no Estado de S. Paulo, 10/9/00, p. 2

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